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COLUNISTA
Herbert Marques
25/05/2004 - 08h01
Memórias de Hans Staden - VII
 
 

O relato de Hans Staden com relação à fabricação de canoas encontra-se em outras obras da época o que podemos concluir como verdadeiro os fatos alegados. Alias, tribos da Amazônia usam esse método até hoje. Contudo não temos registro da árvore igaibira entre nós. Se Staden não chutou, seriam embarcações de 13 metros de comprimento por 1,3 metros de largura, convenhamos, uma senhora de uma canoa.

Deixando esse registro vamos encontrar, no capítulo 25 a razão pela qual comiam seus prisioneiros. Alias, quando iniciamos essa série de artigos sobre a obra do escritor alemão, demos uma conotação política a matéria, fazendo uma leve referência sobre os nossos homens públicos e a antropofagia utilizada entre eles para se manter no poder. Como se vê na redação de Hans, nossos antepassados não comiam seus semelhantes por motivos de fome, mas tão somente movidos pelo ódio por serem seus adversários. Convenhamos que para os militantes da política não exista ódio de seus adversários, mas sim e tão somente a busca do poder pelo poder. Debe Mara pa, xe remiu ram begue - Que todo infortúnio recaia sobre você, minha comida, minha refeição.

Capítulo 24
O que usam para viajar na água

Na terra deles há um determinado tipo de árvore a que dão o nome de igaibira. Eles destacam a casca dessa árvore de cima abaixo, num único pedaço. Para consegui-la inteira, fazem uma armação extra em torno da árvore.

Transportam essa casca das montanhas até a beira do mar, onde ela é aquecida sobre o fogo e então dobrada para cima, tanto na parte de trás quanto na da frente. Antes disso, amarram madeiras no meio para que não se distenda. É dessa maneira que fabricam barcos, nos quais até 30 homens podem ir em expedições de guerra. A casca é da grossura de um polegar, tendo mais ou menos 4 pés de largura e 40 pés de comprimento, algumas ainda mais longas, outras mais curtas. Com tais barcos, eles viajam o quanto quiserem, remando depressa. Se o mar está agitado, arrastam os barcos para a terra até que o tempo melhore novamente. Não ousam afastar-se mais de duas milhas no mar, mas navegam trechos muito grandes ao lado da costa.

Capítulo 25
Por que eles comem seus inimigos

Eles não comem seus inimigos porque têm fome, mas sim por ódio e grande hostilidade, sendo que, nos combates entre eles, durante a guerra, gritam cheios de raiva: "Debe Mara pa, xe remiu ram begue - Que todo infortúnio recaia sobre você, minha comida, minha refeição. Nde akanga juka aipota kuri ne - Quero arrebentar a sua cabeça ainda hoje. Xe anama poepika re xe aju - Estou aqui para vingar em você a morte dos meus amigos. Nde rôo, xe mokaen sera kuarasy ar eyma rire. - Antes que o sol se ponha vou ter assado a sua carne." E assim por adiante. Fazem tudo isso por causa de sua grande inimizade.

Capítulo 26
Como eles conferenciam quando planejam uma expedição de guerra na terra dos seus inimigos

Quando pretendem fazer uma expedição de guerra em território inimigo, reúnem-se todos os chefes e conferenciam a respeito do melhor procedimento. O resultado da conferência é anunciado nas cabanas, para que todos possam aprontar-se. Como eles não conhecem nenhuma divisão segundo dias ou anos, determinam o dia da partida, nomeando, por exemplo, a época de amadurecimento de certa fruta. Também costumam definir o ataque de acordo com a época de desova de peixes, como, por exemplo, o pirati. A época de desova é chamada de piracema. Para essas ocasiões, equipam-se com barcos, flechas e farinha grossa de raízes (a uiatã) como mantimento. Então perguntam aos pajés, os adivinhos, se serão vitoriosos. Estes respondem afirmativamente na maioria das vezes, todavia os aconselham a prestar atenção nos sonhos em que os inimigos aparecem. Caso muitos deles sonhem que estão vendo a carne dos inimigos assando, isso é interpretado como uma vitória. Porém, se muitos vêem a própria carne assando, isso significa infortúnio, sendo portanto, melhor permanecer em casa. Assim que os sonhos lhes parecem animadores, aprontam-se. Bebidas são preparadas em todas as cabanas grandes, onde eles dançam e cantam com seus ídolos, as maracás, para as quais cada um deles pede que o ajude a capturar um inimigo. Depois partem. Chegando bem perto do território dos inimigos, na última noite antes da invasão, os chefes ordenam que todos notem bem os sonhos que tiverem.

Eu estive presente em uma dessas expedições de guerra. Quando nos encontrávamos bem próximos da terra inimiga, na véspera do ataque, o líder andou à tarde pelo acampamento. Ordenou a todos que guardassem seus sonhos dessa noite. Aos homens jovens, deu instruções para caçarem animais e pegarem peixes ao raiar do dia. Isso aconteceu. O chefe mandou cozinhar tudo, depois reuniu os outros chefes diante da sua cabana. Sentaram-se no chão em círculo, receberam algo para comer e, depois da refeição, contaram os sonhos favoráveis da noite anterior; em seguida, dançaram em celebração com suas maracás.

Espreitam as cabanas de seus inimigos durante a noite e atacam ao alvorecer. Se aprisionam alguém gravemente ferido, matam-no de imediato e levam a carne já assada para casa. Os ilesos, por sua vez, são levados com vida para lá, até suas cabanas, onde eles os matam. Atacam gritando alto, batendo forte com os pés no chão e soprando instrumentos feitos de cabaças. Carregam muitos cordões amarrados, com os quais pretendem prender os inimigos, e enfeitam-se com penas vermelhas como um tipo de sinal de identificação. Atiram flechas depressa, usando também as incendiárias, com o propósito de atear fogo às cabanas dos inimigos. Possuem ervas medicinais para tratar de seus próprios feridos.

Capítulo 27
Os equipamentos de guerra dos selvagens

Eles possuem arcos e flechas com pontas feitas de pedaços afiados de ossos atados a elas. Também empregam para isso dentes de tubarões, peixes que capturam no mar. Para suas flechas incendiárias, pegam algodão embebido em cera e prendem nas pontas das flechas, depois acendem-nas. Fabricam escudos feitos de cascas de árvores e peles de animais. Além disso, enterram espinhos pontudos, da mesma maneira como fazemos aqui com armadilhas de pé.

Ouvi dizer, mas não presenciei, que eles afugentam os inimigos das fortificações com pimenta (que realmente cresce em sua terra). Fazem isso do seguinte modo: quando sopra um vento favorável acendem uma grande fogueira e jogam dentro dela um monte de pimenta. Assim que a fumaça espessa chega às cabanas, os inimigos são obrigados a fugir. Acredito nisso, pois, certa vez, quando me encontrava na companhia dos portugueses, como já foi narrado, em uma província daquela terra chamada Pernambuco, aconteceu o seguinte. Nosso barco havia encalhado em uma borda de rio, na hora da maré baixa, e muitos selvagens vieram com a intenção de tomar a embarcação de assalto. Como não foram capazes, jogaram muitos arbustos secos entre a margem e o barco. Pretendiam nos espantar com a fumaça da pimenta, mas não conseguiram atear fogo à madeira.


Nota do Editor: Herbert José de Luna Marques [1939 - 2013], advogado militante em Ubatuba, SP.
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