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COLUNISTA
Herbert Marques
31/05/2004 - 15h04
Memórias de Hans Staden - VIII
 
 

Por mais enfadonho que possa ser os capítulos até aqui publicados, este último não deixa de ser emocionante pela forma pela qual foi redigido. Embora os críticos tenham definido Hans Staden como um tanto quanto fantasioso em sua clássica narrativa, o ritual que ele descreve tem cores de realismo até então desconhecido pelos historiadores daquela época e transmite formas perfeitamente assimiláveis pelo leitor, por mais despreparado que possa ser.

Por outro lado, deixamos de fazer qualquer paralelo com os dias de hoje por razões óbvias. Em respeito a obra que o cinema chamou de gostoso francês, mas que na realidade era um alemão de Homberg, em Hessen, conforme nota ao final do capítulo (*) a seguir transcrito.

Capítulo 28
Quais são os costumes festivos que têm para matar e comer seus inimigos. O que usam para dar-lhe o golpe fatal e como lidam com eles.

Quando os prisioneiros são trazidos para casa, as mulheres e os filhos dos selvagens têm permissão para bater neles. Depois os enfeitam com penas cinzas e raspam suas sobrancelhas. Dançam em volta do prisioneiro, bem amarrado para não escapar. Dão-lhe uma mulher, que cuida dele e é sua serva. Se ela fica grávida, criam o filho até estar grande, a fim de matá-lo e comê-lo posteriormente, quando lhes parecer melhor. Ao prisioneiro, dão boa comida, mantendo-o vivo por algum tempo, enquanto se preparam para a festa. Fabricam muitos potes para a bebida, além de outros especiais, em que guardam as coisas usadas para pintar e enfeitar o prisioneiro; também fabricam franjas de penas usadas no porrete com o qual vão matá-lo, assim como um longo cordão para amarrá-lo antes de morrer. Quando está tudo pronto, definem o dia em que o prisioneiro deve morrer e convidam gente de outras aldeias para a festa. Um ou dois dias antes do tempo determinado, a bebida é colocada nos potes. Porém, antes de preparar a bebida, as mulheres levam o prisioneiro algumas vezes até o local e dançam em volta dele.

Após a chegada de todos os convidados, o chefe faz uma saudação e lhes dá as boas vindas com as seguintes palavras: "Venham agora e ajudem a comer nossos inimigos." No dia anterior à bebedeira, eles amarram o cordão de mussurana em torno do pescoço do prisioneiro. Nesse dia, também pintam a ibira-pema, o porrete com o qual o matam, que mede mais de uma braça de comprimento. Untam a madeira com uma pasta grudenta, em seguida pegam a casca cinzenta dos ovos de um pássaro chamado macaguá, trituram-na até ficar reduzida a pó e fazem listras no porrete. Então, uma mulher senta-se e risca algo nessa poeira colada. Enquanto ela está desenhando, outras mulheres permanecem à sua volta, cantando alto. Já enfeitada com franjas de penas e outras coisas, como é o costume, a ibira-pema é pendurada em uma haste acima do chão de uma cabana vazia, em volta da qual os selvagens dançam e cantam durante a noite toda.

O rosto do prisioneiro é pintado da mesma maneira, com as mulheres cantando em volta enquanto uma delas faz a pintura. Quando começam a beber, carregam o prisioneiro para o local e fazem-no beber junto, divertindo-se às custas dele.

No dia seguinte ao da bebedeira, descansam. Constroem para o prisioneiro, no lugar onde ele vai morrer, uma pequena cabana em que, bem vigiado, passará a sua última noite. Chegando a manhã, ainda algum tempo antes do alvorecer, eles dançam e cantam em torno da ibira-pema até o raiar do dia, quando levam o prisioneiro para fora da sua cabaninha, que derrubam para abrir espaço. A mussurana é retirada de seu pescoço, amarrada em volta do corpo e retesada dos dois lados, de modo a ficar firme no meio. Muitas pessoas seguram o cordão em cada extremidade. Deixam-no ficar de pé assim por algum tempo e põem umas pedrinhas perto dele, para que possa jogá-las nas mulheres, enquanto elas correm à sua volta mostrando com vão comê-lo. As mulheres, todas pintadas, têm a tarefa de, assim que seu corpo for repartido, correr ao redor da cabana com os quatro primeiros pedaços, pois isso agrada aos outros.

Então eles acendem uma fogueira a cerca de dois ou três passos do prisioneiro e obrigam-no a olhar para ela. É quando uma mulher vem correndo com a ibira-pema, levanta as franjas de penas, dá guinchos de alegria e passa perto do prisioneiro, fazendo-o ver o porrete.

Finalmente, um homem pega o porrete e toma posição em frente ao prisioneiro, segurando a arma de maneira que este seja obrigado a olha-la. Enquanto isso, aquele que vai matá-lo sai com mais treze ou quatorze e eles colorem seus corpos com cinzas antes de voltarem ao lugar onde se encontra a vítima. O homem que segurava o porrete entrega-o ao matador; depois o chefe vem, pega dele a arma e a coloca entre as pernas, o que é visto como uma honra. A seguir, o responsável pelo golpe apanha o porrete novamente e diz: "Aqui estou eu, vou matar você, pois os seus companheiros mataram e devoraram muitos amigos meus." O prisioneiro responde: "Se morro, também tenho muitos amigos que vão vingar-me."Ao ouvir essas palavras, o outro golpeia por trás na cabeça, fazendo os miolos saltarem fora. Imediatamente as mulheres pegam o corpo, arrastam-no para o fogo e raspam sua pele. Fazem-no ficar completamente branco, tapando-lhe o traseiro com um pedaço de madeira para que não saia nada.

Quando a pele está retirada, um homem pega o morto e corta as pernas acima do joelho e os braços junto ao corpo, então vêm quatro mulheres, apanham essas quatro partes e correm com elas em volta da cabana sob grandes gritos de alegria. Em seguida, os homens separam as costas com o traseiro da parte frontal e repartem a carne entre si. Mas são as mulheres que levam as vísceras, das quais, depois de cozidas, fazem uma papa denominada mingau, que elas e as crianças bebem. As mulheres comem as vísceras e também a carne da cabeça; os miolos, a língua e o que mais for aproveitável, são as crianças que recebem. Depois de tudo isso, cada um volta para sua cabana levando seu bocado. Aquele que matou o prisioneiro, por sua vez, escolhe mais um nome. O chefe risca uma marca na parte de cima do seu braço com o dente de um animal selvagem. Quando a ferida sara, a cicatriz é vista como um sinal de honra. O matador tem que ficar quieto em sua rede no dia da matança. Ele recebe um pequeno arco e flechas, a fim de passar o tempo atirando num alvo de cera. Fazem assim para que o braço não vá tremer devido ao horror do golpe fatal. Tudo isso eu presenciei pessoalmente e vi com meus próprios olhos.

Os selvagens só sabem contar até cinco. Querendo contar mais do que isso, mostram os dedos das mãos e dos pés. Quando se referem a um número grande, apontam para quatro ou cinco pessoas, indicando com isso o número de seus dedos dos pés e das mãos.

(*) O nome integral da obra é "A verdadeira história dos selvagens, nus e ferozes devoradores de homens, encontrados no Novo Mundo, a América, e desconhecidos antes e depois do nascimento de Cristo na terra de Hessen, até os dois últimos anos passados, quando o próprio Hans Staden de Homberg, em Hessen, os conheceu, e agora os traz ao conhecimento do público por meio da impressão deste livro".


Nota do Editor: Herbert José de Luna Marques [1939 - 2013], advogado militante em Ubatuba, SP.
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