Adaptações de peças teatrais e clássicos da literatura tinham propósito de difusão cultural. Programas ajudaram a criar linguagem própria para a televisão, utilizando elementos do cinema e do rádio.
| | | Arquivo UbaWeb |  | | | | Réquiem de tamborim - peça em 3 atos exibida no TV de Vanguarda, programa da Televisão Tupi, SP, direção de Benjamin Cattan, em 9/2/1964. |
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Os programas de teleteatro exibidos pela TV Tupi nos anos 50 foram importantes na criação de uma linguagem própria para a produção de televisão. "Além disso, eles mantinham um propósito de difusão cultural que dava prestígio à emissora", afirma Sidênia Freire Pereira, que apresentou dissertação de mestrado sobre o tema na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. A pesquisadora estudou três programas da TV Tupi de São Paulo, Grande Teatro Tupi (1951-1965), TV de Vanguarda (1952-1967) e TV de Comédia (1957-1967). "As encenações eram ao vivo, pois o videotape só apareceu por volta de 1962", relata. Segundo Sidênia, as principais características dos teleteatros da TV Tupi eram a improvisação e a experimentação. "Os textos originais eram adaptados quase no ato, só com alterações para fazer mudanças de câmera e cortes no switcher (mesa de controle)", explica. "Para criar uma linguagem televisiva foram usadas técnicas do próprio teatro, do rádio e do cinema." O programa que mais usou a linguagem cinematográfica, aponta a pesquisadora, foi TV de Vanguarda, produzido por Walter George Durst. "Mesmo usando câmeras pesadas e com troca de lentes manual, sua movimentação era baseada no cinema, com uso do zoom (aproximação) em cenas mais dramáticas e travellings (panorâmicas)", conta a pesquisadora. Cultura A maioria dos textos do TV de Vanguarda eram adaptações de peças e livros estrangeiros. "Apenas em 1962 foi realizado um concurso para revelar autores nacionais, mas com experiência em teatro", lembra. "Nesta fase se destacam os textos de Plínio Marcos, Oduvaldo Vianna Filho e Osman Lins." O Grande Teatro Tupi, observa Sidênia, era produzido pelas principais companhias de teatro da época, que encenavam peças dos próprios repertórios. "Os críticos da época reclamavam que as câmeras eram muito estáticas, sem a movimentação do TV de Vanguarda", observa. De acordo com a pesquisadora, o TV de Comédia sempre usou textos nacionais, seguindo a linha da sitcom (comédia de costumes). Sidênia Freire conta ainda que na década de 50 os teleteatros davam prestígio às emissoras. "Havia a preocupação em usar o veículo para difusão cultural, numa lógica semelhante à das emissoras não-comerciais de hoje", afirma. "Depois, os teleteatros foram considerados elitistas, mas esta crítica não leva em conta que nos anos 50 o número de pessoas com televisão era bem menor, devido ao alto preço dos aparelhos." Os teleteatros começaram a sair da programação com o início da telenovela diária em 1963, na TV Excelsior. "O uso do videotape permitiu a exibição diária de novelas e a criação de uma grade de programação fixa, que obteve uma audiência grande e fiel", explica. "O grande número de capítulos diluia os custos de produção da novela, enquanto para produzir um programa de duas horas do TV de Vanguarda eram necessárias duas semanas de produção."
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