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Pesquisador comparou interação entre a televisão e as relações sociais e familiares de moradores de São Paulo e Bogotá para entender a origem da identidade cultural latino-americana.
Por intermédio das telenovelas é possível verificar que as sociedades latino-americanas são dinâmicas e que suas culturas se misturam continuamente com novos elementos, fazendo surgir novas práticas, costumes e valores sociais. A conclusão é do historiador José Paulo Germano, em tese de doutorado defendida no Programa Pós-Graduação em Integração da América Latina (Prolam) da USP. José Paulo Germano analisou a série Malu Mulher, a novela Mulheres Apaixonadas, produzidas pela Rede Globo, a série Heróis de Turno e as novelas Betty, A Feia e Joana, A Virgem, todas colombianas. "Essas produções colocam em pauta discussões correntes na sociedade, como o papel da mulher, o alcoolismo, o preconceito e a violência contra a mulher no matrimônio, assuntos em que o tema família é uma preocupação destacada", explica. "Muitos programas são capazes de descrever e documentar a sociedade, retratando seus hábitos e costumes, mas também podem ajudar na promoção de mudanças." Segundo o pesquisador, a telenovela se tornou um terreno conflituoso, mas fecundo de redefinições de identidades sociais e políticas produzidas nas metrópoles latino-americanas. "Ao possibilitar representações expressivas do urbano e de seus espaços, as novelas trazem aos atores sociais novas formas de convívio baseadas em novos valores essencialmente urbanos", aponta. Identidade Germano também cita a novela colombiana Café, exibida no Brasil e na maioria dos países latino-americanos, como exemplo importante de comunicação nas metrópoles. "Trata-se de uma leitura cultural da espacialidade do urbano, que une os processos artesanais da colheita do café com a produção tecnológica e a comercialização do produto, além de discutir os deslocamentos sociais, a legitimação do divórcio e outras práticas sociais recentemente aceitas", conta. O pesquisador aponta que a televisão tornou-se um dispositivo capaz de se opor ao isolamento das populações, criando vínculos culturais comuns à maioria da população. "O desequilíbrio social gerado pelo desenvolvimento urbano atual, veloz e sem controle é, em parte, compensado pela eficácia das redes televisivas nas metrópoles", diz Germano. "Nesse sentido, as narrativas complexas das histórias de vidas dos cidadãos que habitam a cidade são lidas e interpretadas seguindo suas diferenças culturais", afirma. José Paulo Germano observa que nas cidades latino-americanas a massificação da sociedade de consumo se manifesta em símbolos que lidam com as diferenças culturais, mas apagam memórias e mudam a percepção do tempo e do espaço, ameaçando as identidades. "Entretanto, os imaginários resistem e criam novos sentidos, que reúnem de forma heterogênea os locais e os modos de auto-reconhecimento que fazem a identidade de um povo", diz. "A ficção televisiva reflete essas contradições, pois expressa os questionamentos que surgem com as transformações das sociedades na América Latina."
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