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COLUNISTA
Alexandru Solomon
30/07/2010 - 17h00
O sigilo era pouco e... quebrou
 
 
Conversa (des)afinada

Mais uma história com vocação para enigma indecifrável. Os dados fiscais do vice do PSDB abandonaram seu casulo legal e saíram voando por aí. Vazaram qual vulgar poço da BP. Erro administrativo, desvio de conduta, alopração? Paul, o cefalópode da moda, já sabe; não é o único a ter a resposta, mas esse papo de ‘todos queremos saber’ já é exagero.

Dizem os Cartaxo-boys, aliás foi Cartaxo himself quem informou que houve múltiplos estupros/acessos. Cinco ou seis, foi dito, como se fosse sobrenatural contar corretamente até roku (em japonês). Obviamente o sistema da Receita tem essa informação, no entanto aos mortais comuns foi deixada uma única pista: a analista Antônia. Ser o único nome apresentado não a transforma em culpada (única).

Pode ser que a moça, ao chegar por último, serviu apenas para encobrir acesso "motivado" de algum superior. É fácil verificar se ela tinha por hábito pescar nessas águas límpidas ou se o fez num momento de tédio. Embora isso dificilmente irá constar do currículo da senhora A. é algo de comprovação instantânea – como o antigo Nescau. Era uma bisbilhoteira compulsiva, uma alcoviteira focada, ou tudo não passa de intriga para puni-la? Ela não se lembra do fato. Será ela uma inocente desmemoriada, ou de tanto ver declarações ela chegou a não se lembrar justamente dessa?

Continuando o devaneio, como no caso do vice Alencar e o flerte alçado à categoria de relacionamento com moça de vida fácil(?), o filho (vazamento – em ambos os casos houve vazamentos em graus distintos) pode ter sido fruto de contatos eventuais – da funcionária ou de algum outro ’elemento’ de mais alto coturno. Eis uma vantagem do regime comunista – ninguém tem coisa alguma para sonegar (melhor dizendo, quem tem, jamais será importunado). Não é nosso caso, nem queremos isso.

A senhora A., funcionária exemplar e os demais curiosos – ou motivados por rotinas – estiveram, em algum momento de posse de um segredo que vazou. Quem foi o mordomo da história? Entendo que a revelação só pode vir dos autores da inocente traquinagem – breve pausa para uma risada – já que o jornalista preservará a fonte – mesmo porque, além de ética, tem amor à vida (dele). Tampouco acredito na possibilidade de papéis abandonados (propositalmente ou por desleixo) sobre uma mesa. Aí o lobo mau passou e divulgou. Pode ser que o terminal tenha ficado abandonado – “vou até o banheiro, quem quiser olhar aproveite!”. Alguém acredita nisso?

É possível que esse aborto tenha mais de um genitor, why not? (é hora de demonstrar meu domínio do inglês).

Imaginemos, que o padrão das informações vazadas esteja acima do nível de indiscrição permitido a uma analista. Então, diz Acácio – o conselheiro – se as informações vão além do poder da senha, ela não pode ter violado por diletantismo. Vai que o chefe perguntou. É Jorge ou George? Momento, boss, let me check!, pera, minha senha não alcança. Não faz mal, sin problema, hija, use a minha. E assim, a moça se vê no mais fundo adubo, por obra de uma conjuntura astral adversa.

Mas caramba – exclamo eu – é comum haver 5 (ou 6) visitas à vida de um cidadão? Lembre-se, Clotilde, que as declarações são checadas e há mecanismos lógicos que conseguem levantar o leporídeo em caso de fraude. Daí, malha fina, filtros euclidianos (acabei de inventar) etc. Daí, sim, vamos ver. E vamos ver uma, duas, três, quatro, cinco...n vezes. São os acessos motivados. ...Não sobra mais tempo nem para comentar o jogo do Corinthians.

O que me parece mais preocupante é o fato de – POSSIVELMENTE, insisto no possivelmente – não se tratar de invasão solitária/ocasional aos dados de alguém. Mesmo porque EJ já foi arquidenunciado e superpentefinado pelo tal Luis Francisco – aquele procurador com cara de cruzamento de Adonis com Drácula. O que fazia naquele mato a analista A, ou aquele que usou sua senha? Nada entendo de senha, mas seguramente não era 12345 e muito provavelmente deveria haver um cartão de acesso, uma certificação digital, ou algo parecido como medida adicional de segurança. Ou seja, permanece uma dúvida: trata-se de mau-hábito ou de infeliz exceção!

Se prevalecer a primeira hipótese, vamos voltar à leitura do ultrapassado(?) 1984 de Orwell.


Nota do Editor: Alexandru Solomon, formado pelo ITA em Engenharia Eletrônica e mestrado em Finanças na Fundação Getúlio Vargas, autor de “Almanaque Anacrônico”, “Versos Anacrônicos”, “Apetite Famélico”, “Mãos Outonais”, “Sessão da Tarde”, “Desespero Provisório”, “Não basta sonhar”, “Um Triângulo de Bermudas” e “O Desmonte de Vênus” (Ed. Totalidade). Nas livrarias Cultura e Siciliano. E-mail do autor: asolo@alexandru.com.br.
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