21/10/2019  01h48
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CULTURA
Museu Caiçara
Antigo Museu CaiçaraAtual Museu Caiçara
Foto: © Domingos Fábio Félix dos SantosFoto: © Luiz Felipe Bacellar de Azevedo

Naquele final de semana, as pessoas não tinham muita opção de lazer. Era um domingo cheio de vento. Até que a notícia de uma apresentação circense chegou à mesa em que todos lá de casa almoçavam. O início, previsto para as duas horas da tarde. A vizinha descrevia eufórica a arena cercada pelas arquibancadas. Também seriam servidos salgadinhos, doces, e guloseimas irresistíveis a qualquer criança.

Assim começou a expectativa quanto ao Sítio Sapezinho, que até então eu só sabia que existia porque morava lá o seu Luiz Ernesto Kawall, um sujeito que dava serviços de jardinagem para meu avô e vivia tirando a paciência de minha avó para que trocasse o oratório cheio de santos que ela tinha em casa por qualquer coisa que quisesse.

Praxedes Mário de Oliveira
Foto: Arquivo UbaWeb
O tempo passou, certo dia veio o convite para a inauguração do Museu do Bairro. O Museu do Tenório, o Museu Caiçara, idealizado pelo caiçara ubatubense, Praxedes Mário de Oliveira, e pelo jornalista Luiz Ernesto Kawall, foi inaugurado em 1983. A história dos bairros do Itaguá, Tenório, Ponta Grossa e adjacências era contada através desse espaço cultural. O Museu realizou 14 Festivais de Viola e inúmeros encontros caiçaras onde se apresentavam os grupos folclóricos regionais, sempre cercado de violeiros e turistas que apreciavam a cultura caiçara.

A festa rolou o dia todo. À tarde, os artistas deram uma palhinha no palanque montado no jardim. Lá estava eu. Quanta gente importante! Falavam de coisas que eu não compreendia; mas pareciam entender e apreciar aquele monte de coisas velhas. Tralhas tão comuns no dia-a-dia, colchas de retalhos feitas pela Dona Ritinha, barcos e canoinhas feitas pelo meu avô "Rita", potes de barro, ferros de passar à carvão, utensílios de ferro para cozinha, oratórios com imagens de santos rodeados de muitas flores encardidas. Nessa ocasião foi que avistei vários álbuns de fotografias. A maioria das pessoas antigas que eu conhecia estava lá.

Por treze anos o Museu Caiçara foi ponto de atração no bairro do Tenório. Posteriormente, o museu foi transferido para a AAMUC - Associação dos Amigos do Museu Caiçara e suas instalações transferidas para uma área em terreno do Projeto Tamar / Ibama, onde funciona atualmente. Reportada às formas das antigas construções, a estrutura do Museu Caiçara é de pau-a-pique, também chamada de taipa de mão, construída pelo mestre construtor Jorge Inocêncio Alves que fez sua estrutura básica de madeira bruta lavrada à mão e fincada nos extremos. No meio das paredes um trançado de jiçara, unidos entre si pela casca de um cipó chamado imbé. O barro aplicado sobre esse trançado, previamente hidratado e amassado com os pés. O piso é de moedo - mistura de argila com cinza, em quantidades ideais que, após socado, forma o chão do nosso museu.

Como um tributo à memória de Ubatuba, foram utilizados na construção do museu materiais oriundos de construções antigas: as telhas são da Fazenda Velha, as bandeiras que adornam as laterais são do antigo Hotel Felipe e as vigas e portas de canela da Casa Vigneron do bairro do Itaguá.

Hoje, o museu é dirigido por uma associação, cuja diretoria é reconhecida pela atuação na vida cultural da cidade.

FONTE
Fátima Aparecida Carlos de Souza
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