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COLUNISTA
Mateus Modesto
06/11/2008 - 07h15
Desejo proibido
 
 

- Eu vi isso! – gritou Maria Fernanda, dando-lhe um leve empurrão.
- Viu o quê, meu amor? – disfarçando.
- Luis Marcelo, não me faça de boba! Você sabe do que estou falando.

Luis Marcelo tentou desconversar, insinuando que os olhares são puro impulso, mas que não revelam nada, muito menos algum interesse no objeto visualizado. Maria Fernanda não acreditou. E continuou a murmurar.

- Ainda insisto em sair contigo. Eu apenas me estresso ao seu lado.
- Eu não te entendo. Se te chamo para sair, você reclama. Saio sozinho, você me persegue. Do que tem medo? Você é o meu amor.
- Mas não sou sua paixão. – sempre tem resposta na ponta da língua.

Caminharam por mais alguns metros, em silêncio. Talvez fosse preciso para mudar o astral dos dois.
Pararam defronte a uma loja de calçados. Os sapatos chamaram a atenção dela. Nem de longe eram os mais bonitos da cidade, mas os mais caros. Ela decidiu entrar na loja. Ele concordou.

- Como é?
- O quê?
- Você vai me deixar entrar em uma loja com sapatos feios e caros? O que está querendo com isso?

Ele ficou sem reação. Estático, sua voz não saía. Procurou entender o que ela queria, olhando para as vendedoras, que a esta altura cochichavam umas com as outras a histeria da mulher. Envergonhado, decidiu ir embora, deixando-a.
Maria Fernanda era extremamente ciumenta. Não aceitava olhares do marido para outro local, senão o seu corpo. Não permitia conversa com pessoas desconhecidas para ela. Não lhe agradava ver o marido feliz e ela triste – sempre pensava no pior.
Luis Marcelo era calmo. Conhecia as loucuras da mulher. E suas fantasias. Desde o tempo de namoro. Aliás, fora isso que o atraíra. Portanto, amava-a – até hoje seus amigos não o entendem.
Na volta para casa, ele a esperava no carro, quando, ao lado, uma linda mulher estacionava o carro. Ele relutou, mas sua curiosidade foi maior. Disfarçando, olhava pelo canto dos olhos, pelo retrovisor, de relance. Todas as formas para observar e não ser descoberto. Olhou por completo aquela máquina – uma perfeita aquisição. Admirou-se e desejou, do fundo do coração, tê-la em suas mãos.
Maria Fernanda, para sua sorte, custou a chegar. Provavelmente entretida com as compras. A esta altura, ele nem mais se preocupava com o valor que chegaria ao cartão. Incomodava-se com seus pensamentos. “Não é traição. É apenas um desejo. Um leve e insignificante desejo”, pensava. Mas ele sabia que não era insignificante. Aquilo havia tomado seu coração! E ele olhava para si, relembrando seu passado e suas conquistas, e doía-lhe a alma. Respirou fundo. Decidiu ir até lá.
O tempo, antes ensolarado, fechou. Nuvens cobriram o céu, impedindo a luz invadir aquele ambiente. Ele prosseguiu, mesmo martirizando-se. Abriu a porta do carro. Pôs um pé para fora. Respirou fundo. Saiu. Uma dor apertou-lhe o coração. Ele sabia que era errado.
Maria Fernanda aproximava-se contente, com enormes sacolas. Seu riso cobria-lhe todo o rosto. Mas entristeceu-se ao ver o marido aos beijos. Aquilo foi como uma faca penetrando em seu peito. Com ela não havia todo aquele amor. Não que recordasse. A passos lentos, dirigiu-se até ele. Inúmeros pensamentos tomaram-lhe a mente. Sabia que tinha uma parcela de culpa. Mas não justificava tal ação.
Encostou. Disse “oi”. Fez com que não percebesse, mas ela havia notado as lágrimas.

- De arrependimento?
- Sim. Não sei como... – abraçou-a.
- Acalme-se. – fria. Não tem problema.

Eles ficaram em silêncio. Ele estava envergonhado.

- Sabemos que não somos a paixão um do outro. Mas procuremos mudar, tudo bem? Eu te amo!
- Tudo bem. Eu prometo... nunca mais.. nunca mais eu faço isso. Eu vi o carro ao lado e olhei o meu. Bateu um desespero de olhá-lo por dentro. Mas meu coração não permitiu. Era como uma traição ao nosso velho e querido carro.

Ajoelhou-se, abraçou o carro e pediu perdão, aos prantos. O dia clareou.


Nota do Editor: Mateus dos Santos Modesto é jornalista. Veja também em www.mateusmodesto.com.br.
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