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COLUNISTA
Rui Grilo
28/09/2012 - 15h00
Cidade educadora
 
 

Outro dia, ao subir a escada rolante da Estação Primavera-Interlagos, fui observando o quanto o bairro havia mudado. Foi uma sensação boa, de alegria, de saber que a luta valeu a pena. Foi como se um filme fosse sendo passado em meu cérebro relembrando o início de minha vida em São Paulo.

Em 1971, fui morar na Cidade Dutra, o bairro que circunda a parte mais ao sul do Autódromo de Interlagos, onde iniciei minha carreira no magistério municipal. Embora distante quase 30 km da Praça da Sé, era um bairro organizado e com boa infraestrutura.

No entanto, estava fora das minhas condições econômicas a aquisição de uma casa para morar, que era um grande sonho meu. Por isso, em 1973, comprei uma casa no Jardim Colonial, onde em 1975 seria inaugurado o SESC Interlagos, o que valorizaria muito a região.

Vi o construtor limpar o terreno e o conjunto de casas semelhantes ir surgindo. As casas tinham 49 metros quadrados de área construída, sem muro, sem poço e sem fossa. A rua era de terra e a condução era precária. Para poder mudar, cada um tinha que pagar a construção do poço e da fossa. Aos poucos, alguns iam construindo os muros.

Quase todos eram jovens casais começando a vida. Em meados de maio fui morar lá, sozinho. Em junho comecei a namorar e em novembro me casei.

No começo, a água do poço era boa mas à medida em que um outro vizinho fazia o seu poço, a água do meu poço começava a diminuir.

A pequena distância entre poços e fossas e a existência de formigas a perfurar a terra começou a agravar o problema da água trazendo o problema da contaminação. A SABESP alegava que havia leis que proibiam a instalação de água encanada e que não havia planos para atendimento a essa demanda. Houve uma grande mobilização e também uma grande repressão ao movimento, com a utilização do DOPS comandado por Romeu Tuma. Aos poucos foram sendo conquistadas algumas melhorias, como a instalação de caixas d’águas coletivas abastecidas por carros pipas.

O Movimento Luta pela Água foi crescendo até o ponto de levar 40 ônibus lotados de moradores à sede da SABESP em Pinheiros. Assim, no final da década de 70 conseguimos a instalação da água encanada.

Mais tarde, na época em que houve o surto de cólera, um médico sanitarista reconheceu que se não tivesse havido essa luta pela água tratada, haveria a mortandade de milhares de pessoas.

Outra luta grande era pela instalação de um hospital e de escolas, o que deu origem ao Movimento de Educação e Saúde. Muitas pessoas morriam porque o hospital mais próximo era em Santo Amaro, a quase 10 km de distância e que não dava conta da grande demanda. Depois de quinze anos de luta conseguimos a instalação de um grande hospital na região.

Hoje, uma criança ou adolescente não precisa caminhar mais do que um quilômetro até a escola mais próxima. Em 1971, havia alunos que moravam a mais de 20 km da escola e tinham que disputar um lugar nos ônibus lotados, com pessoas dependuradas do lado de fora das portas.

Hoje, quando chego na catraca e mostro a identidade e vejo um funcionário com toda a delicadeza liberar a minha passagem, me lembro dos motoristas passarem nos pontos onde havia idosos, sem abrir as portas e às vezes molhando quem estivesse no ponto ao passar por poças de água.

Nunca poderia imaginar que o povo pobre da periferia de São Paulo teria esse “luxo” chamado escada rolante, estação limpa, transporte eficiente e seguro e praças arborizadas e bem cuidadas.

Na cidade, a convivência de grande número de pessoas com situações desumanas e degradantes levou-as a se unirem para poder sobreviver. Muitas vezes parecia que esse dia nunca iria chegar. Uma simples ida ao cinema poderia se tornar um suplício pela demora da condução ou pelo fato dos ônibus estarem sempre superlotados.

Ao constatar que demorei apenas 40 minutos para ir da minha casa a um cinema na rua Augusta percebi o quanto a inclusão sociocultural depende da eficiência e garantia do transporte público.

Ao ver essa transformação, penso que a esperança de que é possível mudar é o que nos mobiliza e que a mudança não vem sem luta e sem mobilização social.

Quando alguém diz que não adianta votar porque nada muda, porque todos roubam, é uma maneira de matar a esperança e de manter a mesma situação. A substituição daqueles que negam o direito do povo a uma vida melhor e mais humana é necessária. Às vezes há retrocessos e erros, mas onde houver homens haverá erros e a possibilidade de superação e correção.


Nota do Editor: Rui Alves Grilo é professor da rede pública de ensino desde 1971. Assessor e militante de Educação Popular.
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