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Crônicas
26/03/2004 - 12h45
O relógio de seu Marciano
Aládio Teixeira
 

Eu me lembro, era pequeno e me deleitava com as conversas de seu Marciano que, todos os dias chegava no pequeno bar de meu pai, ao cair da tarde, para tomar umas cangibrinas, oportunidade em que deitava a contar fabulosas e fantásticas histórias, que sempre jurava serem as mais fiéis reproduções de fatos reais, com ele sucedidos.

Recordo-me bem, por exemplo, do espetacular episódio que um dia contou, sobre uma caçada que fizera, em um certo e já distante dia radioso de maio, em que se embrenhara mato adentro no sertão do Ubatumirim e, no dado momento em que pacientemente fazia campana com relação a uma vara de porcos-do-mato que avistara, foi surpreendido por rugidos escabrosamente assustadores.

Os porcos-do-mato que, seu Marciano pacientemente observava, bichos ariscos por natureza, com os rugidos despinguelaram-se em rápida debandada pela floresta. Os rugidos que então passou a ouvir, assinalava dramaticamente seu Marciano, com o avançar do tempo iam ficando mais nítidos, dando pista de que sem dúvida, cada vez mais, fosse o que fosse, se aproximava do ponto em que se encontrava.

Seu Marciano a esta altura do campeonato, conforme ele mesmo frisara, tremia mais que vara verde, pois deveras, fora apossado de imenso pânico, sem contar a repentina e incômoda dor de barriga que sobre ele se abatera, e os rugidos que ouvia, contava ele, cada vez mais, aumentavam de substância, até que finalmente deixaram de ser apenas rugidos avassaladores para concretizarem-se numa enorme jaguatirica que estacou altiva, garbosa e feroz, a alguns passos de onde ele se encontrava.

Meus amigos, dizia seu Marciano, eu suava por todos os poros existentes e imagináveis, tentei ainda, municiar a espingarda, mas o afobamento fruto do nervoso que passou a me governar, me impedia de conseguir achar o cartucho, a jaguatirica que se mantivera parada por algum tempo, que se diga de passagem me pareceram séculos, finalmente decidiu avançar, a princípio com matreirice, o que é próprio desses animais, para em muito curto espaço de tempo, já convencida de que estava no controle da situação, certamente em decorrência da certificação de minha fragilidade, e isto, vou lhes contar meus amigos, os animais percebem pelo cheiro do adversário, não teve mais dúvida e partiu de vez, para cima de mim.

Eu muito corajoso e valente, também não tive dúvidas, ensebei as canelas e, pernas para que te quero, disparei uma louca corrida pela mata, sem rumo, sem direção nenhuma, me lembro que corria tanto que a camisa chegava a fazer papos, só sei que num dado momento, no meio da tresloucada corrida que empreendi, senti que algo se desprendeu de meu braço, como alma que desgarra do corpo quando se desencarna, e de relance, conforme somente me permitia o crucial e angustiante momento, ainda olhei para o braço e constatei que o relógio não mais se encontrava em meu pulso, contudo, a fenomenal corrida mato adentro prosseguia célere, na frente ia eu, o grande e altivo caçador e, atrás, a nobre e voraz jaguatirica, em última análise a suposta "caça" que a seu turno parecia querer soltar fogos pelas ventas.

Minha gente, a situação estava preta e foi ai que avistei um frondoso pé de bacupari, foi o que me salvou, subi até o galho mais alto daquela santa árvore, e dela me vali, em baixo a me espreitar a tinhosa, indômita e altiva jaguatirica me encarava da forma a mais intimidadora que se possa imaginar.

Longo tempo se passou, até que a baila raivosa da pintada, desvaneceu em sua titânica vontade de me traçar e acabou por desistir de sua potencial refeição. Desconfiado, desci trêmulo e totalmente descomposto da árvore, pra falar a verdade, agora sem querer esconder nada, confesso, todo cagado...

Realmente como se pode notar, engraçada e recheada de suspense, a história de seu Marciano daquela tarde, sem dúvida fora uma delícia, contudo, cá entre nós, falando francamente, marcou-me mais, não pêlos lances de grandes perigosos e emoções vividos por ele, e sim, pelo inusitado e surpreendente desfecho que se seguiu.

Contava então seu Marciano que, depois das peripécias da caçada mal sucedida, não tornara ao local do fatídico acontecimento, o que somente ocorreu muitos anos adiante, mais precisamente, depois de dezesseis anos, e para seu espanto e incredulidade, de repente, não mais que de repente, no mesmo ponto em que sucederam os acontecimentos recheados de tensão nervosa com a jaguatirica, começou a ouvir um som similar ao tic-tac de um relógio. A principio era um tic-tac meio débil, lá longe, mas na medida em que avançava pela picada o tic-tac ia ficando mais firme, mais nítido, mais robustecido, por isso mesmo, resolveu dar uma paradinha a fim de tentar localizar de onde vinha o som que não tinha o menor sentido, uma vez que fugia totalmente à lógica do local, e foi ai que, num dos relances, vislumbrou pendurado em um galho de espinheiro o belo relógio que havia perdido no infeliz dia de caçador em estratégica e veloz retirada, tendo ao encalço uma garbosa e enfurecida jaguatirica.

A princípio não quis crer, e então resolveu se aproximar um pouco mais, certificando-se embasbacado que, inacreditavelmente, tratava-se mesmo, sem nenhuma sombra de dúvida do bom e velho relógio de estimação que perdera naquele desventurado dia de maio.

Recordo-me também, de que, naquelas alturas da gloriosa e fantástica conversa no bar, que um dos presentes, não mais se contendo no profundo sentimento de indignação, diante da inverossímil história, sentimento que, diga-se a bem da verdade, dominava cabeça e âmago dos demais ouvintes, que se encontravam no recinto, com total atenção, acompanhando o incrível episódio contado com paixão, por seu Marciano, e cá entre nós, confesso que também me incluía, quanto a acreditar na veracidade dos fatos apresentados pelo referido narrador, não perdoou e fez a incômoda interrogação que não queria calar:

Mas seu Marciano, depois de dezesseis anos, o Senhor conseguiu encontrar seu relógio intacto, em perfeitas condições de funcionamento? Nem ao menos a bateria havia acabado? Sem contar o fato de ter apanhado sol, chuva, sereno.
Seu Marciano deu de ombros, fez um muxoxo, mas nem de leve demonstrou se perturbar com a impertinente e delicada pergunta e impassível tocou pra frente, dando as devidas explicações:

- Em primeiro lugar, disse ele, o relógio não era a bateria, que nunca fui adepto dessas novidades, era de corda e ocorreu que ao voar de meu braço, foi se prender num galho de espinheiro e um dos raminhos enganchou justamente no mecanismo de dar cordas, diante destas circunstâncias, conforme o galho balançava com o vento, ia fazendo girar o mecanismo que por sua vez, ia renovando a corda do relógio, sendo este o motivo que lhe permitiu continuar ativo, dando as horas pontualmente, como sempre fizera, ao longo desses dezesseis anos que, lamentavelmente esteve pelos motivos já mencionados, desgarrado de mim.

Encerradas as explicações pertinentes ao caso, diante dos incrédulos inquisidores, seu Marciano pediu de chofre mais uma branquinha, aquela que matou o guarda, lançou respeitosamente um gole pro santo, e num vigoroso trago, sorveu a nefanda, numa só gorpada, depois estalou o copo na mesa fazendo caretas, cumprimentou respeitosamente os presentes e se retirou tranqüilamente, sumindo na escuridão da noite que então, precipitava-se toda preta, sobre a cidade que se recolhia.

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