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Antigamente, logo de madrugada, confortavelmente instalado em minha cama, ouvia o bater característico do motor dos pequenos barcos de pesca, atracados na barra, que se preparavam para sua faina diária no mar. O baticum permanecia bem uns quarenta minutos, depois o silêncio de nossa pequena cidade voltava a imperar. Ali pelas dez horas, a gente ia à barra e o barquinho do seu Pinho já estava lá atracado. Ele escolhia os peixes e camarões e, como já era de praxe, presenteava a quem por ali estivesse com a deliciosa mistura, quase sempre maria-mole, galo ou os camarões menorzinhos... Era sem dúvida uma Ubatuba, além de céu anilado e areias douradas, com fartura e poucas ambições. Andávamos no máximo de chinelinho de borracha, roupinhas feitas em casa, sem nenhum compromisso com qualquer tipo de modismo, mas estávamos sempre muito bem alimentados, pois como já coloquei anteriormente, havia fartura de peixes e de bondade de quem os pescava, sempre a reparti-los, sem contar que não faltava nos quintais dos caiçaras uma boa galinha poedeira, mandioca, batata doce, cará do roxo, couve... Naqueles tempos não havia tantos carros e uma viagem a Taubaté era uma verdadeira epopéia. O rádio era em termos de comunicação quase a única valia e as principais doenças que acometiam nossa população eram a dor de dente, lombriga, bicho-de-pé, constipados, quebranto... Não raramente eram tratadas com rezas, simpatias e remédios de garrafadas, ervas misturadas ao álcool, e nos casos mais complicados quem dava jeito mesmo era o seu Filhinho. Nosso mundo não era tão amplo assim, isolados com nossa fé, de fato estávamos e a bem da verdade, sonhávamos com o progresso, que também para sermos sinceros, não sabíamos bem do que se tratava, mas lógico éramos otimistas e víamos tal processo como a oportunidade de uma vida superior do que a que tínhamos, com mais conforto e facilidades. Achávamos por exemplo que com boas rodovias de acesso à cidade, poderíamos aumentar o número de pessoas que poderiam nos visitar e desta forma, implementar de forma mais afirmativa o turismo em nossos limites. Ledo engano, pois que para nossa surpresa, ainda que invadida todos os anos de forma vertiginosa, em detrimento de uma série de conjunturas, tais como: falta de infra-estrutura, políticas de turismo inadequadas, nunca nossa cidade enfrentou um quadro de tanta pobreza quanto o atual, mas nossas esperanças se renovam, pois quem sabe talvez, o novo contexto político que principia, não possa vir a resgatar nossos valores turísticos, pesqueiros e da agricultura, desenvolvendo ações que os impulsionem, permitindo com que assim, possamos sair das dificuldades em que nos encontramos. A par de tudo isso, nossa cultura também precisa ser melhor considerada e preservada, urge que se resgate por exemplo, nossas danças do Xiba, de São Gonçalo, a Congada, os causos, nossas músicas regionais, a gastronomia caiçara, as simpatias e rezas de nosso povo, nunca esquecendo das Lendas, dos Blocos Carnavalescos, da Corrida de Canoas, as Festas de Santo Antonio, São João e São Pedro. Lembro que nos meus tempos de criança, era costume aqui em Ubatuba, as comunidades armarem fogueiras e ao som da sanfona, se dançar maravilhosas quadrilhas, com o intuito de enaltecer esses santos queridos de todos, enfim a alegria tem que voltar, pois a população de Ubatuba sem dúvida a deseja e merece!
Nota do Editor: Aládio Teixeira Leite Filho é natural de Ubatuba e se auto-intitula: "um escrevinhador caiçara".
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